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Conhecendo Marcia Karp
"Supondo que meu trabalho é peculiar, porque eu adoro rir."
Foi com esta afirmativa bem humorada e também com muita empatia, técnica e ação que Marcia Karp dominou a cena em sua passagem pelo Rio de Janeiro, no primeiro semestre deste ano. Numa promoção conjunta, Delphos Espaço Psico-Social, Núcleo de Psicodrama e SOBRAP, essa renomada psicodramatista inglesa, ex-aluna de Moreno e Zerka, proporcionou a um grupo de 70 profissionais, uma vivência inovadora na forma de aquecer, dramatizar e processar em psicodrama.
Na arte, poucos fariam melhor: Na vida, essa mulher, que já é avó, nos cativou com sua espontaneidade, seu charme e sua alegria de jogar conosoco o seu jogo. Esta entrevista foi realizada minutos antes de sua entrada no palco e contou com a colaboração das colegas Ana Maria Otoni Mesquita e Maria Elizabeth Cascardo.
1 - O que é peculiar ao seu trabalho, comparado ao de Moreno e ao de outros psicodramatistas?
Uma coisa que acontece comigo quando estou dirigindo é que eu me perco no protagonista. Eu sou muito boa na inversão de papéis e também adoro "duplar". Eu "duplo" internamente, muito. Eu me concentro nas habilidades do diretor e como ele as utiliza para ajudar o protagonista. No meu caso, posso fazê-lo melhor a partir da internalidade, dos próprios caminhos do protagonista. Mas, eu suponho que meu trabalho ~ peculiar tendo em \ista que eu adoro rir. Moreno declarou em seus escritos que gostaria de ser lembrado como o psiquiatra e o homem que trouxe alegria e riso à psiquiatria. Portanto, eu acredito que o humor é um ótimo barômetro da saúde. Eu acho que a minha maior força como diretora, é a minha grande vulnerabilidade. Não estou certa de como eu a conquistei, mas eu sei que eu uso minha vulnerabilidade para me conectar com as pessoas.
2 - Essa disponibilidade sempre lhe pareceu natural?
Não. Eu costumava planejar tudo, fazer todo tipo de execício para aquecer o grupo. Acho fÍue eu
voltei atrás e agora estou consciente, nos meus treinamentos, que nós não começamos com a criatividade esperando que isso tome as pessoas espontâneas. Eu acho que é justo ao contrário~ O diretor precisa estar existencialmente presente, espontâneo, aberto, vazio e, daí, as
pessoas escolhem criar alguma coisa juntas.
3 - Sua relação com Moreno foi muito marcaDte na sua formação? Determinou a maneira como você trabalha?
Sim. Ambos, Moreno e Zerka foram meus professores. Mentores. Ele estava com seus oitenta anos quando fui ser sua aluna. Comecei minha formação em 1965, com 23 anos. Portanto, tive muita sorte em ser tão jovem e apreender muito com ele: sua perseverança, sua energia. Moreno foi a única pessoa que eu vi tão ofegante de entusiasmo no palco... Zerka teve
uma grande influência em mim, principalmente por sua enorme paciência.
4 - Quantos livros você já escreveu?
Eu já escrevi três livros. Um foi lançado em português, pela editora Ágora, e se chama Psicodrama: Inspiração e Técnica. O segundo, Psicodrama desde Moreno: Teoria e Prática em breve será publicado em português. O terceiro livro será lançado em agosto de 1998, por
ocasião do Congresso Internacional de Psicoterapia de Grupo, em Londres. Nesta ocasião, estaremos realizando atividades pré-congresso e, por isso, me lembrei de um congresso maravilhoso na Itália, há 10 anos atrás, do qual Dalmiro Bustos participou. O tema era: Um método, muitos estilos, e nós tivemos oito diretores de várias partes do mundo. Pela manhã, cada um dirigia um grupo e à tarde as pessoas discutiam cada direção. Foi uma semana
fantástica, porque as pessoas foram capazes de comparar e cadastrar estilos na aplicação de um método. Para Londres, nós poderíamos conseguir até cinco diretores como Dalmiro Bustos e Peter Kellerman, de Israel, entre outros.
5 - Cada diretor de psicodrama tem um estilo próprio?
Sim. Eu suponho que se perguntannos a um diretor o que é psicodrama, cada um terá uma resposta diferente. Zerka Moreno, por exemplo, tinha uma irmã que era psicótica e paciente de Moreno. Ela viu o psicodrama ajudar o paciente psicótico e ela o percebe como uma maneira de praticar a vida sem ser punido por cometer erros. Adan Blatner estava interessado no psicodrama como uma maneira de ajudar as pessoas a jogar. Moreno falava do psicodrama como meio de ensinar espontaneidade. Como nós sabemos, ele o chamava a ciência para explorar a verdade através do método dramático.
6 - Você acha que o psicodrama é ciência?
Não. Na mesma medida em que eu não acredito que a psicanálise seja ciência. Eu acho que as hipóteses não eram científicas. Por exemplo, se dissermos que a lua é feita de queijo, pode-se testá-la eventualmente, se formos à lua comprová-la como válida ou não. Se Moreno diz:
o grande recurso do ser humano é a espontaneidade e a criatividade, não há maneira científica de testar essa hipótese. O mesmo acontece com Freud. Ele dizia: nós temos um instinto de morte, nós temos um ego e um super-ego. Como vamos testá-las quando elas não são científicas na sua base? Para mim, tivemos dois artistas, Moreno e Freud. Freud fala sobre seus desapontamentos quando a classe médica adotou suas idéias e não os artistas. Ele confiava mais nos artistas. Eu acredito que ele e Moreno estão juntos em algum lugar falando sobre os seus desapontamentos e algumas de suas realizações.
7 - Sabemos que você conta uma história muito interessante sobre a origem da técnica do duplo?
Há uma história fascinante sobre Moreno e como ele concebeu a técnica do duplo. Isso foi quando ele esteve com Guy de Montpassant, o escritor francês, aparentemente durante um surto psicótico. Este dizia que sua psicose começou quando ele viu um duplo de si mesmo escrevendo sobre sua mesa. Era uma produção involuntária de um duplo e Moreno pensou: como posso ajudar as pessoas a terem controle das suas mentes, fazendo um duplo voluntário de si mesmas? Ele queria ajudar as pessoas psicóticas a ganharem controle de suas mentes. Assim, ele produziu a idéia do duplo, de maneira que elas pudessem ter o poder de dizer: sim,
isto é o que eu penso, ou, não, isto não é o que eu penso. A diferença entre a experiência de Guy de Montpassant e a técnica do duplo é ser involuntário e voluntário, respectivamente.
8 - Além de terminar de escrever seu novo livro, que outros planos você tem atualmente? Quais as questões que lhe interessam no momento?
Atualmente, como membro do conselho da Associação Internacional de Psicoterapia de Grupo, eu
propus a idéia de coordenar um grupo internacional para intervenção nas crises. Isso quer dizer que, se temos um problema na Sómália, entre famílias ou grupos de famílias, se há uma disputa de facções na Suécia, acredito que precisamos ter um grupo de especialistas em Psicoterapia de Grupo apolítico, pois eu acho que não temos a responsabilidade de resolver questões políticas -que pudesse responder ao anseio da população. Uin grupo que pudesse ajudar a clarear esta ou
aquela situação. Por exemplo, durante a guerra nas ilhas Malvinas, eu fui à Argentina, não para resolver, mas para ajudar as pessoas a enfrentarem as adversidades daquele conflito, tais como as separações, as perdas possíveis. A idéia seria colocar nossas ferramentas de saúde mental na promoção da paz mundial, o que de fato foi a meta original de Moreno. Para ele, qualquer procedimento psicoterapêutico devia almejar a paz mundial.
Uma outra questão que me interessa no momento é desenvolver uma reflexão sobre as características de um bom diretor, mulher ou homem, naturalmente. No meu próximo livro há um capítulo no qual eu discuto esse tema. Conversando com Zerka Moreno sobre essas características, ela ponderou que o que considera mais importante em um diretor é a capacidade dele em conhecer suas próprias limitações. Saber diferenciar as áreas do eu e do não eu, do que seja as questões do protagonista e as suas próprias. O diretor precisa ter uma distância para poder investigar a situação e apresentar-se em seu papel sem interromper, sem obstruir o caminho do protagonista. O psicodrama cresceu muito no Brasil e no mundo nos últimos
anos.
9 - Quais suas impressões sobre o nosso país e sobre o movimento psicodramático atualmente?
Eu amo o Brasil e eu amo estar aqui. Gosto da espontaneidade das pessoas, sua música e alma. Isso é muito importante em psicodrama e isso faz com que a "dança da vida" tome-se uma atividade mais criativa. Entretanto, eu também acredito que um dado fundamental sobre o gran-
de desenvolvimento do movimento na América Latina é o fato de ter sido apresentado por psiquiatras que treinaram psicólogos, assistentes sociais e acho que isso ajudou esse crescimento rápido. Na Inglaterra, a psicanálise é muito popular e o movimento se deu de maneira inversa: dos pára-médicos, para os médicos, tornando, assim, as coisas mais dificeis.
Entretanto, nós já temos sete centros de treinamento no país, dirigidos por pessoas treinadas em Wholewell. Em nosso livro, temos a contribuição de 12 autores especialistas, treinados por nós.
O movimento psicodramático está cada dia maior e melhor no mundo inteiro. Acredito que estamos indo de volta para o lugar do "encontro". Um lugar básico onde a máquina, o fax, o telefone móvel precisam ser usados a nosso favor. A máquina não é o encontro. O encontro é o face a face, o olho no olho e é assim que eu penso que temos que prosseguir.
Fonte: Jornal Informativo da FEBRAP - Federação Brasileira de Psicodrama
Ano 14 - nº3 - Julho/Agosto/Setembro - 1997
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